Fonte: UOL
Não é verdade que o Rio de Janeiro está contaminado com urânio por causa da manipulação da substância acetato de uranila em um laboratório da Fiocruz. A desinformação tem sido divulgada nas redes sociais por uma médica servidora da instituição. Ela foi denunciada e responde a processo disciplinar. A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) desmentiu as alegações dela.
Em vídeo gravado na Fiocruz, em que é possível ver o prédio da instituição ao fundo, uma mulher se apresenta como sendo a doutora Isabel Braga e diz que fez uma série de denúncias e alertas sobre suposta contaminação por urânio no Rio de Janeiro após manipulação de acetato de uranila em um laboratório da fundação para uma tese de doutorado. Ela diz que uma creche e todo o Rio de Janeiro estaria em risco por causa disso. Em outras publicações, ela diz ainda que a substância não teria sido descartada de forma apropriada, e que os rios da região estão contaminados por isso.
Fiocruz diz que uso de acetato de uranila integra procedimentos laboratoriais de rotina. Segundo a instituição, não há respaldo nas alegações sobre suposta contaminação de urânio no Rio. O uso da substância faz parte de procedimentos laboratoriais de rotina em contextos científicos específicos (leia aqui). "Este tipo de utilização é realizado em laboratórios de todo o mundo, seguindo parâmetros éticos e legais, de forma adequada à proteção da saúde humana e ambiental", afirma a fundação. A Fiocruz também disse repudiar tentativas de propagação de desinformação e posicionamentos anticiência.
Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) fez um comunicado para explicar sobre o acetato de uranila. O texto desmente a alegação de que laboratórios de pesquisa estariam contaminando o meio ambiente com a substância. Segundo a ANSN, do ponto de vista técnico, a associação não procede porque é preciso levar em conta propriedades físicas, ordens de grandeza e o modo real da utilização dos materiais em atividades científicas. "É compreensível que o nome cause preocupação, mas ciência não se guia por impressão inicial e sim por medida, contexto e quantidade", afirma.
O acetato de uranila é um reagente químico usado há décadas como agente de contraste em microscopia eletrônica de transmissão, explica a ANSN. A quantidade utilizada por experimento é da ordem de miligramas. "Ou seja, estamos falando de volumes muito pequenos dentro da rotina científica comum", declarou. Segundo o órgão, em termos regulatórios internacionais, o uso em experimento enquadra-se na faixa de práticas de impacto radiológico desprezível.
Outra alegação é de que a água do Rio de Janeiro estaria contaminada com urânio por causa do experimento. Para sustentar a tese, Isabel Braga mostra o recorte de uma pesquisa que analisa a concentração de urânio em águas do estado do Rio de Janeiro. A ANSN, porém, explica que rios e águas costeiras contêm, naturalmente, urânio dissolvido proveniente da lixiviação de rochas e sedimentos. "Essa contribuição natural transporta continuamente massas de urânio muito superiores ao inventário total existente em laboratórios de pesquisa de uma cidade inteira. Assim, a simples detecção de urânio na água não indica contaminação por atividade humana específica", afirma.
Órgão também contesta acusação sobre descarte inapropriado. "Instituições de pesquisa operam sob regras de controle de inventário, segregação e destinação adequada. Resíduos contendo compostos de urânio são coletados como rejeitos químicos controlados e encaminhados a rotas apropriadas de gerenciamento. A hipótese de lançamento sistemático em rede de esgoto não apenas viola protocolos básicos de laboratório como também seria facilmente identificável por auditorias, rastreabilidade de aquisição e inconsistência de inventário", explica.
A Fiocruz confirmou que Isabel Braga é funcionária da instituição, lotada na Coordenação de Saúde do Trabalhador. Ela foi denunciada à ouvidoria, os relatos foram encaminhados para a Corregedoria Setorial da Fiocruz e um processo administrativo disciplinar foi aberto.
Procurada, Isabel Braga enviou por email a tese de Kayo Cesar Bianco Fernandes, defendida em 2019. Em uma busca no Google, foi possível encontrar registros de que a pesquisa "Poluentes Químicos e Biológicos em Ambientes Aquáticos e seus Impactos na Estrutura e no Resistoma Móvel de Comunidades Microbiana" recebeu menção honrosa no prêmio Oswaldo Cruz de teses em 2019 e também o prêmio Capes de Tese em 2020. Isabel Braga acusa o pesquisador de ter "semeado urânio" durante a pesquisa. Procurada, a orientadora da tese, Maysa Mandetta, respondeu com a nota da Fiocruz em que a instituição repudia a propagação de desinformação. A pesquisa encontra-se disponível para download no site do repositório institucional da Fiocruz.